Quarta-feira, Junho 20, 2007

Foi um rio que passou em minha vida...

O Fashion Rio passou... e eu não vi.

O São Paulo Fashion Week passou... e eu não vi.

Depois de, sei lá, uns três anos é a primeira vez que fico alheia às semanas de moda. Bom, acontece. Compromissos, trabalhos, correria. Não deu.

Para não dizer que não vi nada, acompanhei a cobertura dos ótimos blogs Blogview (na verdade, um coletivo de blogs!) e Modos de Moda. Excelente.

Mas o tempo que deixei meu filho aqui abandonado não foi em vão. Finalmente consegui concluir a série de reportagens que vinha fazendo no jornal sobre Arranjos Produtivos Locais. E a última delas foi sobre o APL de Nova Serrana, em Minas Gerais. A matéria mostra como as empresas da cidade, conhecida como a capital nacional do calçado esportivo, lutam para mudar a imagem de fabricar produtos que são cópia (olha ela aí de novo!) de marcas consagradas. Uma das formas encontradas foi unir as companhias e criar uma marca própria, a NS Conceito, cuja primeira parceria de peso foi com o estilista Ronaldo Fraga, que apresentou os sapatos criados pelas empresas de Nova Serrana na última edição de Inverno do SPFW. A coleção, ironicamente, tinha a China, país conhecido pelas cópias, como tema. Bom, a matéria é grande, mas vale a pena ler (modesta eu!).




APL calçadista luta por nova imagem


Nova Serrana (MG) ganhou fama por falsificações, mas hoje empresários investem em design


THIENE BARRETO

DO JORNAL DO COMMERCIO, EM NOVA SERRANA (MG)

A cidade mineira de Nova Serrana, a 115 quilômetros de Belo Horizonte, que ganhou fama como pólo fabricante de tênis falsificados, luta para mudar a imagem. Para vencer o desafio, o Arranjo Produtivo Local (APL) de Calçados Esportivos da região investe em capacitação, design e na diversificação dos produtos. Especializadas, em sua maioria, em tênis com foco nas classes C e D, as empresas locais buscam trabalhar também com calçados femininos, masculinos e infantis para atingir até mesmo as classes A e B.
A criação da marca conjunta NS Conceito, nascida em parceria com o estilista mineiro Ronaldo Fraga, é ação importante para consolidar o APL como produtor de calçados com design. "A parceria, que em janeiro levou nossos calçados para as passarelas do São Paulo Fashion Week (SPFW), mostrou que as empresas de Nova Serrana têm potencial. Por isso, continuaremos trabalhando o design, que traz diferencial para o produto. Além do projeto NS Conceito, também realizamos dois fóruns de tendências por ano, Outono-Inverno e Primavera-Verão, quando são apresentadas aos empresários as novidades mundiais no segmento de calçados", explica Adriana Souza, gerente administrativa do Sindicato Intermunicipal da Indústria do Calçado de Nova Serrana (Sindinova).

A cidade de Nova Serrana abriga o terceiro maior pólo calçadista do País em número de estabelecimentos. O APL de calçados é constituído por 854 empresas, sendo 691 fabricantes de calçados esportivos, 110 de femininos e 53 de masculinos. São produzidos, na região e cidades do entorno, aproximadamente 77 milhões de pares por ano, sendo 55% deles esportivos, 30% femininos e 15% masculinos. Essas empresas geram 21 mil empregos diretos e 20 mil indiretos, conforme os dados do estudo para adensamento do arranjo produtivo calçadista de Nova Serrana, realizado pelo Instituto Euvaldo Lodi/Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (IEL/Fiemg) em 2003.

Formalizado em 2002, a partir da criação de comitê gestor formado por entidades como Fiemg, Senai/MG, Sesi/MG e Sebrae/MG, e empresários da região, o APL de calçados esportivos pôde conhecer e trabalhar suas deficiências quando, no mesmo ano, foi realizado diagnóstico para identificar os gargalos produtivos das empresas locais. Além da questão da imagem afetada pelas cópias de produtos de marcas consagradas, o estudo revelou que a falta de mão-de-obra capacitada, as poucas empresas fornecedoras na região e representantes comerciais despreparados prejudicavam o crescimento do pólo. "Além disso, devido à questão da baixa qualidade do produto, os calçados de Nova Serrana não tinham visibilidade nacional", acrescenta Cássio Marra, coordenador do IEL/MG, um dos parceiros do projeto.grupos temáticos.

Para implementar ações que pudessem acabar com os gargalos, foram criados quatro grupos temáticos: mercado e imagem, para trabalhar a parte de prospecção de mercado e vendas; capacitação de recursos humanos; tecnologia e processos; e econômico-financeiro, responsável pela captação de recursos. "Até 2005, focamos na melhoria dos processos produtivos e na capacitação. A partir de 2006, nos voltamos para a comercialização no mercado interno", explica Marra.

À frente da empresa Arena Calçados desde maio de 2005, Jarbas Pinto Martins foi um dos pequenos empresários beneficiados pelas ações voltadas para vendas e gestão. Depois de participar de cursos nas áreas, Martins alega que passou a ter mais controle sobre o departamento de vendas e sobre seus representantes comerciais. "Conseguimos definir público-alvo, cadastrar representantes e montar planejamento de vendas para cada um deles", comemora.

Diferentemente da maioria dos empresários de Nova Serrana, que trabalha com material sintético, o proprietário da Arena Calçados apostou no couro para fazer produto diferenciado. "Focamos nas classes C e D, mas a meta é, em breve, atingir a classe B. Por isso, buscamos cada vez mais seguir as tendências internacionais em relação a modelos e cores, além de contratar designers antes do lançamento da cada coleção", comenta Martins.

A opção por um produto diferenciado faz com que a Arena Calçados direcione a distribuição para lojas menores e butiques, principalmente no interior do Rio e de São Paulo. "Apenas 10% da produção é vendida para grandes redes", revela Martins, que gostaria de aumentar a produção, mas sofre com a ausência de mão-de-obra qualificada na região. "No segundo semestre, que é a época de pico, sempre faltam funcionários", lamenta. A alternativa é manter as unidades de corte e pesponto, que são as primeiras etapas do processo produtivo, em cidades vizinhas.

Não é à toa que todos os alunos do curso técnico de calçados oferecido pelo Senai em Nova Serrana estão empregados. "Muitos chegam até nós encaminhados pelas próprias empresas. Aqueles que começam as aulas sem uma colocação conseguem emprego logo depois de terminar o curso", explica Hernani Carvalho, gerente do Senai em Nova Serrana.

Segundo Carvalho, além do curso técnico, que dura um ano e meio, a entidade oferece cursos de curta duração com foco no processo produtivo corte, pesponto e montagem e nas áreas administrativas, como almoxarifado. De acordo com ele, ainda é insatisfatória a procura pelo curso técnico, em que o aluno aprende, além do processo produtivo, o funcionamento da parte administrativa da empresa, como recursos humanos, qualidade, meio ambiente, design e modelagem. "O curso é mais caro e mais longo. Muitos alunos desistem no meio, quando acham que aprenderam o suficiente, e abrem a própria empresa", diz Carvalho.

Henrique Soares, proprietário da Henso, acredita que a mão-de-obra local ainda tem muito o que evoluir. "A alternativa que adotamos é fazer a capacitação dentro da própria empresa e lutar para manter o funcionário lá. Mas é arriscado. Depois que formamos o profissional, ele passa a exigir salário maior para não buscar emprego em outra empresa", diz. Outro gargalo apontado por Soares é a pouca oferta de fornecedores na região.

Segundo estudo do IEL/Fiemg, de 2003, as empresas de Nova Serrana têm, em todo o País, 99 fornecedores de matérias-primas, materiais e acessórios. Destes, 46,5% estão localizados em São Paulo; 25,3%, em Nova Serrana e seu entorno; e 14,1%, no Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Para lidar com a pouca oferta de fornecedores, a Henso, que é fabricante de calçados esportivos, passou a produzir também o solado de TR (borracha termoplástica de estireno/butadieno). "Além do consumo próprio, também forneço para algumas empresas da região", explica Soares.

Para Martins, da Arena Calçados, a alternativa é buscar fornecedores na região Sul. "É a melhor opção para quem trabalha com couro. Mesmo quando pedimos volume pequeno, as empresas atendem. O que não acontece com as fornecedoras de Nova Serrana, que só querem vender quantidades maiores e oferecem menos opções de material", explica. Segundo o empresário, gradativamente, mais fornecedores têm se instalado na região. "Acredito que daqui a quatro anos teremos empresas suficientes", avalia.

CENTRAL DE COMPRAS. O estudo realizado pelo IEL/Fiemg aponta que as microempresas calçadistas, pela pequena escala de demanda, têm dificuldade em adquirir seus insumos e matérias-primas diretamente dos fabricantes. Por isso, acabam pagando preços superiores. Segundo Adriana, gerente do Sindinova, os empresários da região têm vaga idéia de associativismo. "Há um ano e meio, tínhamos projeto de criar uma central de compras. Não foi à frente devido à complexidade do processo: envolve aporte de dinheiro, padronização de itens e de nomenclaturas", explica. Segundo a gerente, alguns empresários se unem informalmente para negociar com fornecedores, mas isso ainda não faz parte da cultura do pólo.

Uma das metas do Sindinova para este ano é justamente aproximar os empresários da região, principalmente aqueles que comandam empresas de portes diferentes, adianta Ramon Alves Amaral, presidente do Sindinova e dono da Tammy Calçados. "Além disso, queremos fechar parcerias para possibilitar a aquisição de máquinas e expansão das empresas", revela, acrescentando que o sindicato pretende firmar parceria com a Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Fabricantes de Calçados de Nova Serrana (Credinova) para fornecer linhas de crédito para os empresários.


Marca pretende associar pólo à moda

Do mundo das cópias para o mundo da moda. Em vez de réplicas de calçados de marcas consagradas, os empresários de Nova Serrana confeccionaram calçados para Ronaldo Fraga, um dos estilistas brasileiros mais reconhecidos no mercado. As 50 peças, mostradas em janeiro, em desfile da edição Outono-Inverno do São Paulo Fashion Week (SPFW) foram o ponto de partida para a NS Conceito, marca conjunta criada para associar o nome do pólo à moda. "Queremos fortalecer e também dar visibilidade maior para o pólo pela marca", explica Adriana Souza, gerente administrativa do Sindicato Intermunicipal da Indústria do Calçado de Nova Serrana (Sindinova).

Parceria da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Sebrae/MG e Sindinova, o projeto teve início no primeiro semestre de 2006. As empresas calçadistas foram familiarizadas com todas as etapas da construção de uma peça de design. A adesão à marca conjunta é voluntária. Embora o retorno de imagem seja inegável, a participação das empresas locais no projeto deixou a desejar. "Começamos o projeto com 15 empresas e terminamos a parceria com nove. Para participar de uma marca como a NS Conceito, a empresa tem que ter visão de futuro, pois o retorno não é imediato. Muitos empresários locais ainda não pensam assim", avalia Adriana, que acredita em maior adesão na próxima parceria da NS Conceito, ainda sem estilista definido.

DESIGN. Fraga foi o primeiro estilista convidado para participar do projeto. Sua idéia foi levar o design e o designer para dentro das fábricas. Ele também mostrou as potencialidades do pólo para os empresários locais. A coleção, ironicamente, foi inspirada na China o país que tem criado um dos maiores problemas para o setor nos últimos anos. "Queremos dar continuidade ao projeto atrelando essa marca a outros estilistas", afirma.

Segundo Adriana, os empresários estão tendo cada vez mais consciência que investir em design é a saída para lidar com a concorrência dos produtos chineses."A parceria com o Ronaldo Fraga veio ao encontro da ansiedade que os empresários da região estavam sentindo. Estávamos com vontade de fazer algo diferente", conta Jarbas Pinto Martins, da Arena Calçados, uma das empresas que participou da ação. "Fizemos cinco modelos dentro do projeto. Vou lançar quatro, já que uma das peças era muito conceitual", justifica Martins. (TB)

Feira local gera negócios

Para estimular o associativismo e aproximar os empresários calçadistas de fornecedores e compradores, o Sindicato Intermunicipal da Indústria do Calçado de Nova Serrana (Sindinova) aposta na realização de feiras na região. Realizada em abril, a Nova Serrana Feira e Moda reuniu mais de 200 marcas de calçados locais distribuídas por 162 estandes. "Em três dias de feira, foram gerados quase R$ 15 milhões em negócios", diz Adriana Souza, gerente administrativa do Sindinova.

Jarbas Pinto Martins, sócio da Arena Calçados, participará apenas da feira em Nova Serrana no ano que vem. "Em 2006 e neste ano participei da Couromoda, em São Paulo. No ano que vem, pretendo ter estande apenas na Nova Serrana Feira e Moda. O restante da verba será aplicado em anúncios em revistas especializadas", explica Martins, acrescentando que a feira regional tem custo muito mais reduzido.

Além da Nova Serrana Feira e Moda, também acontece na região a Feira de Máquinas e Componentes para Calçados (Febrac), cuja sexta edição será realizada de 22 a 24 de agosto. De acordo com o Sindinova, a mostra, que será realizada a cada dois anos, deve receber 8,6 mil visitantes e gerar negócios da ordem de R$ 7 milhões durante os três dias de realização. Para o pós-feira, o Sindinova estima que sejam comercializados mais de R$ 15 milhões. Para mostrar os lançamentos e as novidades do setor, cerca de 100 expositores irão participar da 6ª Febrac, em área de 4,8 mil metros quadrados. Destes, 20% expõem pela primeira vez. (TB)

5 comentários:

Fê Resende disse...

arrasou na matéria, thiene - que a gente sabe de um tudo que acontece em todo lugar e não conhece essas coisas que estão aqui bem pertinho, né? =)

santa mistura disse...

nota 10000000000000

Glauco Sabino disse...

Essa coisa "rio que passou na minha vida" vive acontecendo comigo... Seria tão bom viver só de blog...rs. Não consegui lr a matéria, pois tô podre podre podre de cansaço. Mas, depois volto aqui e comento...rs. Bjos!

jeanswear disse...

Vim agradecer sua visita... também estou sempre aqui conferindo o seu... inclusive nós duas precisamos ostar com mais frequencia, não acha? (risos)

Thiene B. disse...

Fê, tb adorei fazer a matéria. A gente se acostuma tanto com o lado "glamour" da moda, que acaba se esquecendo um pouco das outras coisas legais dessa cadeia que só faz crescer...

E, realmente, seria muito bom viver de blog, mas não dá, né? Farei o possível para tentar postar mais!